22/04/2019 11h17

Após oito meses do lançamento da obra de recuperação, trafegar pela BR-262 ainda é uma roleta-russa

 

O Perfil News fez o trajeto entre Três Lagoas e Água Clara para mostrar as condições da rodovia, cuja recuperação foi anunciada com pompa e circunstância em evento que contou com a presença do então ministro Marun, da Senadora Simone Tebet e de políticos de toda a região


Foto: Ricardo Ojeda

Buraco-262: as obras da principal artéria que liga Três Lagoas à Capital do estado nunca saíram do papel. Na foto, a região do Córrego do Pombo. Buraco-262: as obras da principal artéria que liga Três Lagoas à Capital do estado nunca saíram do papel. Na foto, a região do Córrego do Pombo.

No dia 24 de agosto de 2018 o então Ministro e braço direito do ex-presidente Michel Temer, Carlos Marun, veio a Três Lagoas, junto com a Senadora, líder da bancada do MDB e atual presidente da Comissão mais importante do Senado, Simone Tebet, para fazer o tão esperado anúncio de recuperação da BR-262.

"Não é um tapa-buraco, é a recuperação completa", insistiram ambos, em seus discursos.

No mesmo dia, o Superintendente Regional do DNIT no Mato Grosso do Sul, Thiago Bucker, abriu os discursos dizendo que a obra era "uma realidade". "As máquinas estão logo ali, no km 40", ele disse.

Não demorou muito para a "realidade" mudar. As máquinas foram indo embora. As obras, parando.

Questionado pelo jornalista do Perfil News, Ricardo Ojeda, o ministro Marun afirmou que as obras estavam paradas em razão das chuvas.

As chuvas foram embora e as máquinas não voltaram. Apesar de Marun falar, na ocasião, que a verba já estaria na conta do DNIT, a alegação é que o dinheiro, de fato, nunca chegou.

"Aqui tem ministro". Tanto Marun quanto Simone repetiram, por diversas vezes, que a obra só estaria saindo porque Três Lagoas e região tinham um Ministro e uma Senadora da República. A obra parou, o Governo mudou, hoje temos três Ministros e três Senadores - e continuamos não tendo a recuperação da BR-262

PASSEANDO COM A MORTE

Na última semana, a reportagem do Perfil News percorreu os mais de 100 km entre Três Lagoas e Água Clara para ver, in loco, as condições da rodovia.

Principal via de ligação entre o oeste paulista e o estado do Mato Grosso do Sul, a BR-262 recebe, segundo dados do DNIT, cerca de 3.100 veículos diariamente. Nos últimos dois anos, mais de 40 pessoas perderam a vida na rodovia, apenas no trecho entre Três Lagoas e Campo Grande. Os motivos são claros: a falta de conservação e sinalização da via.

Não há acostamento por quilômetros e, onde há, o mato impera. Além disso, os degraus entre a pista e o acostamento formam declives que podem fazer tombar, facilmente, até carros maiores.

O O "tapa-buraco" melhorou um pouco as condições gerais da rodovia - mas não é nada parecido com a obra de recuperação, cuja verba de R$ 150 milhões teria sido liberada em agosto do ano passado. Foto: João Vitor

APENAS UM TAPA-BURACO

Apesar do ministro e da senadora garantirem que a obra da BR-262 seria "bem mais do que um tapa-buraco" foi apenas isso o que a reportagem encontrou, durante o dia que fez o trajeto até Água Clara. Isso porque deu sorte.

O tapa-buraco é esporádico e apenas para aliviar um pouco as crateras da pista. Além disso, como o material asfáltico é colocado nos buracos e não há compactação – que é feita pelos próprios carros que passam – a reclamação dos motoristas é que as partículas de betume "voam" e acertam em cheio a pintura e o para-brisa dos carros e a viseira das motos, podendo até quebrar, dependendo da forma como atinge.

Empresários que têm estabelecimentos às margens da Rodovia são impedidos de fazer pequenas obras para melhorar os acessos aos seus comércios. Ninguém quis gravar entrevista com medo de represálias

A reportagem do Perfil News falou com alguns comerciantes estabelecidos às margens da BR. Apesar de todos os ouvidos reclamarem das condições da via e da redução no número de clientes – já que muitos motoristas preferem o caminho por Bataguassu a encarar os buracos da 262 – nenhum deles quis gravar entrevistas. "Não vou falar, não, porque tenho medo de sofrer uma retaliação e que o DNIT mande fechar o meu acesso", disse um deles.

Além disso, muitos empresários tentam fazer a manutenção e o fechamento de buracos, pelo menos, nas imediações de seus estabelecimentos. Mas isso não é permitido pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.

Um acordo entre as transportadoras e o DNIT regulamenta que os caminhões não formem comboios, para não tornar arriscadas as ultrapassagens de veículos menores. Mas, na prática, a história é outra. Foto: Ricardo OjedaUm acordo entre as transportadoras e o DNIT regulamenta que os caminhões não formem comboios, para não tornar arriscadas as ultrapassagens de veículos menores. Mas, na prática, a história é outra. Foto: Ricardo Ojeda

TRECHO CRÍTICO E COMBOIOS

As proximidades do Córrego do Pombo é o trecho regional da rodovia com o maior número de acidentes. As curvas acentuadas e os buracos na pista são responsáveis por capotamentos e perda de controle da direção.

Além disso, o grande tráfego de carretas – especialmente as de madeiras – torna as ultrapassagens perigosas e arriscadas.

Há um acordo entre o DNIT e as transportadoras para que as carretas não trafeguem em comboio. Elas deveriam ficar a, pelo menos, 500 metros de distância uma da outra. Mas não é o que acontece, na prática.

No "passeio" que a reportagem fez constatou diversos comboios, entre carretas de eucaliptos ou carregando outras mercadorias. Cada carreta tem cerca de 25 metros de comprimento. Ao se "unirem", torna a ultrapassagem por carros pequenos extremamente arriscada.

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